EDUCAÇÃO FÍSICA NO CEARÁ
10 ANOS DE REGULAMENTAÇÃO: Uma breve história
Por Ricardo Catunda
Professor UECE e Conselheiro CONFEF
A data era precisamente janeiro de 1995. Estávamos em Foz do Iguaçu na abertura do Congresso Internacional de Educação Física, após quatro dias de viagem de ônibus que organizávamos para o evento, quando o cerimonialista passa a palavra ao Prof. Jorge Steinhilber. Aquele dia marcou o início de nossa luta por um ideal que naquela época tinha ares de sonho distante, afinal, em 1984 a regulamentação já havia sido vetada pelo Presidente José Sarney. O Prof. Steinhilber falava da retomada pela regulamentação profissional da Educação Física, através do PL 330/95. Conclamava a todos os presentes a mobilizarem-se em seus Estados, para que de modo organizado discutissem a regulamentação. Chegando à Fortaleza fomos tentar reativar a Associação dos Professores de Educação Física – APEF, que se encontrava fechada. Não conseguimos ter acesso aos documentos e após encontros nas Universidades e colégios, realizamos uma Assembléia no auditório do Colégio Capital elegendo uma Diretoria para dirigir por mandato de dois anos, uma nova entidade agora denominada Associação dos Profissionais em Educação Física do Ceará – APEFICE. Foi eleito como Presidente o Prof. Ricardo Catunda, tendo ainda como participantes da Diretoria os profissionais Pádua Soares, Ricardo Barata, Henrique José Rocha, Dionísio Alencar, Markus André, Wilson Sabóia e Gélito Estevam. Iniciamos campanha permanente para colher assinaturas e enviar cartas para os parlamentares para a aprovação do Projeto de Lei da regulamentação. Foram tempos de muitos debates na UFC, UNIFOR, UVA – Sobral, URCA, o grande encontro com mais de 600 profissionais no auditório do Colégio Marista, escolas particulares, encontros com professores da rede pública e viagens ao interior. Vendíamos camisetas nos eventos para arrecadar fundos para as viagens dos encontros nacionais e dividíamos despesas com a compra de passagens e estadia. Era muito bom! Não tínhamos a vaidade de ser o Presidente e sim o orgulho de representar o Ceará, que já naquela época começava a se destacar. Após um difícil trâmite em Brasília, com conversas e encontros com Deputados e Senadores e audiência pública com entidades representativas da profissão, aconteceu. 1º de Setembro de 1998 o programa Voz do Brasil anunciava que o Presidente Fernando Henrique Cardoso acabara de sancionar a Lei 9.696/98 que regulamentava a profissão de Educação Física. No dia 08 de Novembro de 1998 na cidade do Rio de Janeiro reunidos no auditório do Hotel Flórida, representantes da Universidades de todo o Brasil e das Associações de Profissionais de Educação Física, sob a responsabilidade da Federação Brasileira das Associações de Profissionais de Educação Física, era eleito para um mandato de dois anos, os primeiros Conselheiros Federais. Havia uma grande expectativa sobre quem seria os primeiros a compor a chapa apresentada pelo Prof. Jorge Steinhilber. Após algumas discussões na Assembléia, um slide é projetado e para nossa alegria o nome do Prof. Ricardo Catunda constava entre os dezoito escolhidos. Não deu tempo de comemorar, iniciamos outra batalha. Precisávamos ganhar a sede para nosso Estado. Passamos a inscrever os profissionais no Ceará concorrendo para a sede do CREF5 com toda a região Norte e Nordeste. Abrimos as inscrições e ao final de árdua campanha onde os colegas investiram em uma entidade sem endereço fixo, pagando a taxa pela confiança naqueles que estavam à frente e sonho de dias melhores para uma profissão desacreditada e que já passava a ser preterida por outras regulamentadas como a Fisioterapia. Agosto de 1999 em reunião na cidade de Campo Grande – MS, foi definido as sedes. Ganhamos com 253 inscrições(hoje 4.905) contra 247 de Pernambuco e 160 de Manaus (Estados que mais se aproximaram). Sem ter sede, nos cotizamos e alugamos uma sala na Rua: Gilberto Studart 409 e doamos o telefone 234.6038. No dia 22 de Novembro de 1999 tomava posse a primeira Diretoria do CREF5 com a seguinte formação: Presidente Ricardo Catunda, Vice-Presidente Ricardo Barata, 1° Tesoureiro Dionísio Alencar, Secretário Geral Pádua Soares, 1° Secretário Carlos Augusto. No princípio éramos nós Conselheiros que fiscalizávamos as academias e escolas. Passados 10 anos, é notável o crescimento do CREF5. A profissão passa a ser valorizada, diversas ações foram empreendidas como: fiscalização de academias, clubes e escolas, certificação de academias registradas, instalação e informatização da sede, biblioteca, cursos gratuitos de atualização, campanha em out door e bus door pela atividade física com profissionais registrados, comemoração do dia do profissional, ações políticas que garantiram duas sessões de Educação Física escolar, participação efetiva na conferência estadual do esporte e realização do Fórum Nordeste dos cursos superiores em Educação Física. O tempo foi passando e o que hoje observamos em relação a profissão e até achamos comum era impensável há 10 anos. Somos lembrados e consultados pelo Ministério do Esporte para ações de políticas públicas, fóruns e eventos, levamos informações a estudantes sobre a profissão e o mercado de trabalho, promoveremos em parceria com o Ministério do Trabalho curso de capacitação profissional com carga horária de 200h com inscrição gratuita, interiorizamos a profissão e a obrigatoriedade do profissional de Educação Física contratado pelas prefeituras, ações constantes para garantir que a intervenção profissional com a Ginástica Laboral, Pilates e musculação pós trauma seja prerrogativa da Educação Física, participação decisiva na Conferência Nacional do Esporte para que o sistema de esporte e lazer contemplasse a obrigatoriedade de ser o profissional de Educação Física o dinamizador das atividades, gestão para que o Ministério da Saúde garantisse o profissional de Educação Física no Núcleo de Apoio a Saúde da Família – NASF e que os deputados orientassem as prefeituras para que a Educação física fizesse parte dos três profissionais obrigatórios no programa. Enfim, são tantas lutas que travamos diariamente para que nossa profissão continue se consolidando que após 10 anos ainda não tivemos tempo de comemorar. Mesmo às vezes batendo o desânimo pela dificuldade de se implantar uma cultura responsável e ética de profissão, é gratificante saber que fazemos algo que constrói. Saber que somos parte de um processo que contribui diariamente para um Brasil mais responsável com a qualidade dos serviços que presta ao seu povo..
Todos nós que construímos a profissão de Educação Física do Ceará, temos muito do que nos orgulhar. Afinal, somos protagonistas da mais contundente e significativa transformação profissional ocorrida no país.